Monogamia & Não-monogamia - Talvez não seja tanto sobre a "gâmia" das coisas... mas sim, sobre como você quer tocar as coisas -
- Camila de Marilac

- 14 de mar.
- 7 min de leitura

Esses dias percebi que apareceram com bastante frequência no meu algoritmo posts que relacionam “relações monogâmicas” ao “feminicídio”. A correlação proposta se baseava no argumento de que relações monogâmicas poderiam incentivar um sentimento de posse sobre o outro e, portanto, legitimar assim que homens matem mulheres...
.Diante dos argumentos de que a monogamia flertaria com sistemas centralizadores — orientados pelo desejo de poder e dominação — gostaria de propor uma reflexão que talvez esteja para além, ou mesmo muito antes, da própria natureza “gâmica”das relações. Trata-se de um aspecto que sinto estarmos deixando de lado quando discutimos essa questão.
Permitir-se estar apaixonado é, de certo modo, abrir mão de qualquer forma de poder. O apaixonamento nos coloca em um nível de vulnerabilidade que não se compara ao de relações — mesmo não-monogâmicas — nas quais ninguém está verdadeiramente apaixonado.
Existe algo na própria natureza da paixão que produz uma espécie de fidelidade espontânea. Não uma fidelidade moral ou normativa, mas uma fidelidade do foco, da atenção, da implicação. Como escreveu Camões, é “um estar preso por vontade”. A paixão funciona quase como um hiperfoco: uma intensificação da presença em torno de alguém ou de algo.
Mozart, Beethoven e tantos outros mestres da arte conheciam bem esse estado. Estar apaixonado por algo — por uma pessoa, por uma obra, por uma ideia — significa aceitar uma certa concentração da energia psíquica. E não é preciso ser um gênio para compreender isso: qualquer pessoa que já tentou fazer algo realmente bem-feito conhece o tipo de dedicação que certos processos de criação exigem.
Talvez por isso, quando alguém está apaixonado e a outra pessoa propõe uma estrutura não-monogâmica, a questão não seja exatamente ciúme, moralidade ou desejo de posse. Talvez seja simplesmente que as duas pessoas não estejam no mesmo estado de exposição afetiva.
Nesse caso, o problema deixa de ser a forma da relação e passa a ser algo mais fundamental: a reciprocidade na vulnerabilidade.
Talvez o que esteja verdadeiramente em jogo nas escolhas “gâmicas” das relações tenha menos a ver com a quantidade de vínculos e mais com o grau de exposição emocional que cada pessoa está disposta a sustentar.
Porque viver uma vida emocionalmente intensa não precisa significar viver uma vida na qual você se coloca em risco. No entanto, hoje parece existir uma tendência curiosa: ser emocionalmente aberto passou a ser facilmente confundido com ser ingênuo, irracional ou incapaz de fazer escolhas inteligentes.
Mas é perfeitamente possível ser apaixonado e lúcido ao mesmo tempo, desde que você não fique identificado com as afetividades que esse estado suscita, nesse sentido, praticar meditação realmente me ajuda, pois entendo, e mais que isso vivencio um modo de ser no qual sei que não sou a dimensão afetiva. Meditar ajuda a se identificar mais com a natureza de lucidez da própria mente do que com os próprios sentimentos. A paixão pode suspender certas formas de cálculo racional, mas isso não precisa significar ausência de inteligência. Muitas vezes significa apenas uma liberdade momentânea em relação ao logos instrumental da razão.
E é justamente por isso que, quando estamos apaixonados, torna-se ainda mais importante perguntar: há reciprocidade nesse nível de vulnerabilidade?
Quando apenas uma das partes está apaixonada, abre-se um campo propício para assimetrias difíceis de sustentar.
Diante disso, a ideia de que a maneira de nos protegermos de violências — como o feminicídio — seria abrir mão da exclusividade que frequentemente acompanha os estados de apaixonamento parece deslocar o problema para um lugar estranho. Em certa medida, soa como mais um tipo de sacrifício exigido das mulheres diante da incapacidade dos homens lidarem com suas próprias emoções.
Algo não muito distante da velha lógica de dizer que mulheres deveriam evitar usar minissaia para não provocar o assediador.
Talvez a questão seja mais simples.
Temos o direito de estar apaixonados e de desejar a exclusividade que esse estado convoca, justamente porque ele nos coloca em uma posição de maior vulnerabilidade.
Antes de decidir se uma relação deve ser monogâmica ou não, talvez a pergunta mais honesta seja outra: o que estamos realmente sentindo — e qual é o nível de vulnerabilidade envolvido nisso?
A forma da relação deveria nascer dessa resposta.
No meu caso, percebi algo simples: quando não estou apaixonada, consigo viver relações não-monogâmicas. Mas quando estou, não consigo. O apaixonamento me coloca em um nível de vulnerabilidade tal que, para me preservar, a reciprocidade precisa incluir também os termos da exclusividade.
Mas, ainda falando de vulnerabilidade, há um ponto importante que precisa ser aprofundado: quando é que os homens realmente experimentam vulnerabilidade dentro de um relacionamento? Porque, definitivamente, em relações não-monogâmicas é que não! E talvez esteja na hora de a gente olhar para isso com mais honestidade — especialmente nós, mulheres héteras.
Essa pergunta ajuda a explicar, ao menos em parte, a violência estrutural direcionada às mulheres, que em seus extremos mais brutais aparece nos crimes de feminicídio.
Li recentemente um post do perfil @acordamenina.br que fazia a seguinte pergunta: “Por que a ‘liberdade sexual’ quase sempre exige que as mulheres ampliem a tolerância àquilo que as fere?”
O texto lembrava algo fundamental: dentro do patriarcado, a monogamia sempre funcionou historicamente como um arranjo para garantir patrilinearidade, herança e controle sobre a sexualidade feminina. Enquanto isso, os homens frequentemente mantiveram acessos paralelos a outras mulheres — e às vezes também a outros homens.
Nesse sentido, a não-monogamia, do ponto de vista masculino, não necessariamente representa algo revolucionário. Eles sempre tiveram acesso a relações paralelas. Em muitos casos, a não-monogmia apenas atualiza um arranjo muito antigo. Como dizia o post:
“acesso masculino ampliado a mais mulheres sem perder o trabalho doméstico, emocional e sexual de uma (ou mais) companheira fixa (…) romper com a monogamia não desfaz o patriarcado, apenas redistribui o acesso masculino aos corpos femininos (…) enquanto a supremacia masculina organizar a intimidade, toda inovação afetiva funcionará como atualização do mesmo privilégio.”
O texto também citava a teórica feminista Sheila Jeffreys, que aponta que mulheres heterossexuais não podem exercer a sexualidade da classe dominante sobre os homens, simplesmente porque não pertencem à classe dominante.
Ou seja, em uma sociedade patriarcal, a pista da não-monogamia heterossexual tende estruturalmente a favorecer os homens. Eles ocupam a posição de classe dominante dentro da organização social e simbólica das relações. Já as mulheres heterossexuais — por mais que isso seja incômodo de admitir — não partem do mesmo lugar.
Antes mesmo de qualquer escolha relacional, já existe uma assimetria estrutural de poder. Eles têm mais privilégios simplesmente por serem homens em uma sociedade patriarcal, que por sua natureza lhes confere mais espaços de poder.
Dito isso, nossa vulnerabilidade já é maior desde o início, independentemente do nível de exposição afetiva que escolhemos ter.
Se o patriarcado organiza a masculinidade em torno de força, domínio e controle dos corpos femininos, então quando esse domínio falha muitos homens vivenciam isso como uma ferida narcísica. Isso ajuda a entender fenômenos contemporâneos como os chamados movimentos Red Pill e Incel, nos quais homens ressentidos transformam frustração sexual e afetiva em hostilidade contra mulheres.
E como muitos desses homens lidam com essa frustração? Não lidam. Não entram em contato com a própria vulnerabilidade, deslocam o ressentimento, de "não serem machos o suficiente", no que diz respeito ao modelo de masculinidade patriarcal, para a violência — que, em seus extremos, pode culminar em feminicídio.
Isso nos leva novamente à pergunta central: quando os homens entram em contato com alguma vulnerabilidade real nas relações?
Como diz minha amiga Beth, quando os homens se sentem vulneráveis, "eles matam".
Mas pensando nos que não matam, e em minha experiência como mulher heterossexual, que talvez conseguiu fazer algumas boas escolhas, posso dizer que isso tende a aparecer apenas em um momento específico: quando existe a possibilidade concreta de perda (e olhe lá hein?!).
Quando nós colocamos um limite, uma condição, quando exigimos algum nível de implicação, responsabilidade ou compromisso para que a relação continue existindo.
Ou seja, quando o acesso deixa de ser garantido à revelia de qualquer pretensa idiossincrasia masculina.
Uma vez, completamente identificada com minha condição de bicho mamífero, depois de descobrir que um namorado flertava com outras mulheres, resolvi pesquisar — de forma bem esportiva, sem muito compromisso científico, mais por curiosidade — como funcionam as relações reprodutivas entre grandes felinos, especialmente leões e tigres.
Descobri algo curioso: em muitos casos, os machos mantêm relações mais exclusivas com determinadas fêmeas quando a disponibilidade de fêmeas é escassa ou quando elas estão ocupadas com outras atividades — caçar, cuidar dos filhotes, sobreviver — e não estão constantemente disponíveis para o acasalamento, e nem há outras que tampouco o façam.
Em outras palavras, algum nível de limite ou escassez acaba produzindo formas temporárias de fidelização.
Podem me chamar de conservadora se quiserem, mas me parece difícil acreditar que ampliar a disponibilidade dos corpos femininos para múltiplos homens seja exatamente o tipo de “liberação sexual” capaz de transformar estruturas seculares de privilégio masculino.
É quase o contrário. Portanto, sustentar estruturas não-monogâmicas dentro de um sistema patriarcal que já favorece os homens pode ser, paradoxalmente, muito mais conservador do que parece, pois acaba ampliando privilégios que eles já possuem — sobretudo ao aumentar a acessibilidade aos corpos femininos.
É curioso admitir isso, porque, em termos puramente instintivos, eu poderia ser uma grandiosíssima piranha — verdadeiramente atraída por alguns exemplares de machos da minha espécie, dando enlouquecidamente por aí (se eu não estivesse apaixonada, claro). Mas, em nome de alguma militância política e afetiva, me contenho, ficando apaixonada? talvez? (bom ponto pra minha terapia: o apaixonamento enquanto forma de me preservar sexualmente).
Não porque desejo menos liberdade, mas porque já existem vulnerabilidades demais em jogo para que eu acrescente mais uma camada de disponibilidade a um sistema que historicamente já privilegia os homens.
Então, quando estou apaixonada, diante de um possível relacionamento com um homem, minha militância erótica acaba me fazendo as seguintes perguntas:
A intimidade dessa relação consegue ser organizada por alguma outra forma de estrutura que não faça manutenção de uma dominação baseada na lógica de uma supremacia masculina?
Ele consegue gozar mais com minha (bvcta) do que com os privilégios de pertencer a uma classe dominante?
Ele consegue perder?
Consegue abrir mão do privilégio que sua posição estrutural lhe oferece para realmente entrar em contato com alguma vulnerabilidade?
Consegue se apaixonar a ponto de correr o risco de querer ficar? Afinal, o amor precisa de futuro para existir.
E talvez o mais importante:
Eu estou fazendo o trabalho para permitir que meu inconsciente se estruture de tal forma que eu consiga desejar um homem que opere nesses termos? Ou minha forma de desejar ainda está cooptada? E eu ainda gozo com escolhas românticas fiéis ao discurso hegêmonico de dominação masculina?
Afinal, em psicoterapia, e no budismo (que é minha religião), culpabilizar o outro nunca vai ser a saída. Aprendemos com Shantideva, que a única pessoa da qual você pode reclamar, é você mesma. Ou seja - a culpa de por quem, e como estou me apaixonando, "é minha só, não é de mais ninguém, aos outros eu devolvo a dó... a dor é de quem tem."
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